{"id":139,"date":"2012-10-17T09:50:01","date_gmt":"2012-10-17T14:50:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adrigomes.com\/trocaliteraria\/?p=139"},"modified":"2012-10-17T09:50:01","modified_gmt":"2012-10-17T14:50:01","slug":"empatia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.adrigomes.com\/trocaliteraria\/2012\/10\/17\/empatia\/","title":{"rendered":"Empatia"},"content":{"rendered":"<p>Leio muito sobre como escrever melhor. A Internet est\u00e1 cheia de artigos sobre como criar di\u00e1logos mais envolventes, como inserir suspense na sua narrativa, qual a melhor forma de estruturar seu manuscrito, e recentemente foi-me oferecido um webinar chamado \u201cA F\u00edsica de uma Est\u00f3ria\u201d, seja l\u00e1 o que for isso. H\u00e1 uma abund\u00e2ncia de t\u00edtulos criativos para artigos \u00a0sobre \u201ccomo fazer melhor\u201d, e livros de autoajuda para escritores. Acho tudo isso \u00f3timo, juro. Sou agradecida pela infinidade de informa\u00e7\u00e3o, facilmente acess\u00edvel atrav\u00e9s da internet, que me ajuda no meu trabalho. Por\u00e9m, a ferramenta mais importante que eu tenho como escritora, \u00e9 minha empatia, minha conex\u00e3o emocional com meus personagens.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.adrigomes.com\/trocaliteraria\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/1-photo_51590_20110727-001.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-140\" title=\"empatia\" src=\"http:\/\/www.adrigomes.com\/trocaliteraria\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/1-photo_51590_20110727-001.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/www.adrigomes.com\/trocaliteraria\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/1-photo_51590_20110727-001.jpg 400w, https:\/\/www.adrigomes.com\/trocaliteraria\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/1-photo_51590_20110727-001-300x224.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p>De acordo com o dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio, empatia \u00e9 uma forma de identifica\u00e7\u00e3o intelectual ou afetiva de um sujeito com uma pessoa, uma id\u00e9ia ou uma coisa.<\/p>\n<p>Ou seja, empatia \u00e9, simplesmente, a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Quando eu escrevo eu estou sempre me vendo no lugar dos meus personagens, do mocinho ao bandido. E quanto mais eu consigo me distanciar da minha pr\u00f3pria realidade, e mergulhar profundamente no papel dos meus personagens dentro da trama, mais pura a minha empatia, e mais forte minha conex\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas maneiras de ampliar a nossa capacidade de sentir empatia. N\u00f3s aprendemos atrav\u00e9s das nossas experi\u00eancias pessoais, e da nossa exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vida. E n\u00e3o \u00e9 de se estranhar, que leitores \u00e1vidos t\u00eam n\u00edveis superiores de empatia. Mas eu tive a oportunidade maravilhosa de viver em tr\u00eas pa\u00edses, em tr\u00eas continentes distintos. E posso atestar que n\u00e3o h\u00e1 nada como a total imers\u00e3o em outras culturas, para ampliar nossas id\u00e9ias, aumentar o nosso respeito por estilos de vida diferentes, e a nossa toler\u00e2ncia a pontos de vista opostos, e portanto, nossa empatia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada como ver uma crian\u00e7a pequena sentada no meio-fio com fome em uma prov\u00edncia chinesa distante, onde as \u00fanicas fontes de prote\u00edna s\u00e3o carnes ex\u00f3ticas e insetos, para compreendermos, e aceitarmos, que para essa crian\u00e7a seria um prazer comer carne de cachorro, se ela conseguisse ter acesso a um prato. Diante deste quadro a repulsa desaparece. Se voc\u00ea pudesse prepararia de bom grado uma suculenta perna de cachorro para ela. Mas como n\u00e3o tem nenhum cachorro por perto, voc\u00ea acaba oferecendo uma bolacha cheia de a\u00e7\u00facar para a crian\u00e7a, que acabar\u00e1 por estragar os dentes dela, pois se ela n\u00e3o tem acesso a comida, t\u00e3o pouco ter\u00e1 \u00e0 escova de dentes e fio dental. Horas depois, quando voc\u00ea finalmente chegar de volta ao seu hotel, se sentir\u00e1 impotente diante da dura realidade chinesa, e miser\u00e1vel por ter dado o doce para a crian\u00e7a. Assistir a um document\u00e1rio sobre tais circunst\u00e2ncias \u00e9 uma coisa, ver de perto, cheirar, e tocar, \u00e9 outra completamente diferente. Eu n\u00e3o estou escrevendo isso para fazer voc\u00ea se sentir mal, mas uma experi\u00eancia como essa nos faz muito mais tolerantes a diferentes h\u00e1bitos alimentares pelo mundo, sem mencionar mais dispostos a ajudar.<\/p>\n<p>Escolhi este exemplo n\u00e3o s\u00f3 por ter me marcado, mas tamb\u00e9m porque me fez perceber que eu estava dessensibilizada pelas minhas pr\u00f3prias experi\u00eancias crescendo no Brasil, onde durante meus anos de forma\u00e7\u00e3o, vi muita pobreza e fome, at\u00e9 o ponto em que a mis\u00e9ria n\u00e3o me tocava mais t\u00e3o profundamente. Quando vivia no Brasil, eu costumava ter sacos de p\u00e3ezinhos, ou pacotes de bolacha no meu carro, e cada vez que eu parava num farol, se uma crian\u00e7a ou um mendigo pedia dinheiro, eu lhes oferecia comida. Cansei de ver, tanto crian\u00e7as como adultos, jogando a comida que eu tinha acabado de dar na sarjeta. Eles queriam dinheiro, seja para drogas ou para bebida, ou para d\u00e1-lo ao dono da esquina que os havia levado para pedir esmolas. Sa\u00ed do Brasil h\u00e1 quase quinze anos, e sei que a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds melhorou, mas tamb\u00e9m sei que ainda encontramos situa\u00e7\u00f5es como as que descrevi nos bairros mais pobres das grandes metr\u00f3poles brasileiras.<\/p>\n<p>Claro que a maioria dos pedintes agradeciam o alimento, e muitos pediam mais para levar para casa. Mas sendo extremamente honesta, a verdade \u00e9 que eu estava t\u00e3o acostumada a esses encontros di\u00e1rios, no meu caminho para a faculdade ou para o trabalho, que tudo parecia casual. N\u00e3o h\u00e1 nada casual sobre a fome, e quando me deparei com ela fora do meu cotidiano, me vi chocada como quando era crian\u00e7a no Brasil, e queria que meus pais trouxessem todas as crian\u00e7as que eu via pedindo na rua para casa conosco. Esta percep\u00e7\u00e3o do quanto eu estava anestesiada me trouxe de volta n\u00e3o s\u00f3 a sensibilidade ao desespero da pobreza e da viol\u00eancia, como me fez muito mais capaz de apreciar as minhas pr\u00f3prias ben\u00e7\u00e3os. N\u00e3o notamos como nosso ambiente nos transforma porque a mudan\u00e7a \u00e9 gradual, e sem perceber vamos diminuindo nossa capacidade de empatia pouco a pouco.<\/p>\n<p>Para evitar que esta letargia social volte a me dominar, tento manter minha cabe\u00e7a aberta. Al\u00e9m das escolhas \u00f3bvias, tais como ler e viajar, tamb\u00e9m procuro dispor do pouco tempo estra que tenho para voluntariar, e estou sempre a disposi\u00e7\u00e3o para ajudar os amigos. O bacana \u00e9 que quando eu ajudo ao pr\u00f3ximo, imediatamente recebo ajuda de volta. \u00c9 uma troca, um pouco de meu tempo por uma melhor eu, e meu trabalho como escritora sempre se beneficia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leio muito sobre como escrever melhor. 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